Equipes #5 – Tipologias da Cultura Organizacional

As tipologias permitem vislumbrar a cultura organizacional como um sistema de valores compartilhados que, por sua vez, compreende subsistemas que orientam os modos de agir dos indivíduos na organização. Como cada organização institui sua identidade através de suas práticas e como cada modo de agir é distinto, pode-se, de um modo geral, falar de diversos tipos de organizações e de culturas. Dessa forma, para uma melhor compreensão das culturas, foi estabelecida uma divisão global dos tipos, segundo naturezas, práticas e orientações.

Barbosa (2002) afirma que, num nível geral, as culturas organizacionais se dividem em dois grandes grupos: o grupo das organizações com fins lucrativos e o grupo das organizações sem fins lucrativos, nos quais as atividades administrativas se constituem sob aspectos completamente diversos (BARBOSA, 2002, p. 44).

Dessa forma, considerando os tipos em sua diversidade, e, entendendo-os como opções metodológicas dos autores, julga-se oportuno apresentar apenas os tipos de ocorrência mais comuns, e, em paralelo, os que melhor contribuirão para o enriquecimento deste estudo. Assim, privilegiar-se-ão os tipos indicados por Handy apud Freitas (1991, p. 52-63), e os baseados em Sethial e Von Glinow apud Freitas  (1991, p. 52-54), respectivamente.

Handy assiná-la os seguintes tipos de cultura organizacional:

A Cultura do poder: orientada para resultados, tem, como plano de fundo de suas práticas mais corriqueiras, a subsistência da relação entre poder político, processualismo e lógica. Prevalecendo o elemento com maior peso em relação às circunstâncias. Nesse tipo, o poder é centralizado e as decisões são elaboradas mais como resultado do equilíbrio de influências e menos como manutenção do equilíbrio entre as forças existentes; verifica-se ainda, a tendência à desburocratização de procedimentos e a valorização da assunção de riscos por parte dos empregados. É um Tipo comum entre as empresas pequenas.

A Cultura de papéis: orientada pela adoção de papéis no sentido de definir e descrever os múltiplos procedimentos aos quais os indivíduos a ela integrados estão submetidos. Nesse sentido, privilegiam-se cargos e funções como elementos preponderantes de uma estrutura hierárquica que oferece ambiente seguro, sendo, contudo, estático. Poder e controle dos processos internos são mantidos como meta individual. Há zelo pelo ambiente e pela valorização de regras tanto no sentido de adotá-las como meio para se melhorar a própria práxis quanto para a solução de conflitos. Não chega a ser burocrática no sentido da palavra, admite-se, contudo, procedimentos pautados por princípios desta categoria.

A Cultura da tarefa: o termo tarefa aqui utilizado para designar a relação entre o uso dos recursos humanos, ferramentas de trabalho e os projetos (tarefas) a serem executados, sofreu, pelas práticas empresariais, uma conotação pejorativa. Contudo, este se consolida como um tipo de cultura no qual há valorização de regras e de procedimentos orientados para resultados a partir da boa disposição dos recursos materiais e humanos com vistas à eficácia na operacionalização dos processos. Há flexibilidade, adaptabilidade e valorização do trabalho em equipe. O exercício do poder é mediado pela autoridade instituída através de princípios da hierarquia ou do conhecimento.

A Cultura de pessoa: como o nome sugere, este tipo de cultura tem a pessoa como cerne do próprio existir. Isso significa que a missão e os objetivos da organização giram em torno da pessoa e de seus valores individuais. Dessa forma, orienta-se pela busca do equilíbrio entre a manutenção da atividade organizacional e a valorização do indivíduo enquanto pessoa. É um tipo raro, sendo mais possível sua ocorrência entre ordens de advogados, sociedades de arquitetura, grupos sociais, etc. Há orientação para a liberdade de criação e de expressão. Os indivíduos envolvidos nesse tipo de cultura têm autonomia para seguirem suas próprias tendências e preferências.

Como contraponto aos modelos supra citados, tem-se os tipos concebidos por Sethia e Glinov apud Freitas (1991, p. 59), os quais tomam a cultura organizacional como estratégia administrativa e vinculam-na a um sistema de recompensas. Nesse sentido, atribui-se valor às performances e recompensa-se pelos resultados. São eles:

Cultura apática: tipo de cultura em que se verificam modelos de liderança inadequados ou alienados. Neste tipo trabalha-se em função de compensação pecuniária. Os empregados necessitam de motivações externas, ou seja, não há entusiasmo pelo trabalho. O clima de insatisfação é predominante. O trabalho é executado mecanicamente; o grau de preocupação com pessoas é considerado baixo, e varia na mesma proporção da preocupação com performance.

Cultura cuidadosa: neste tipo de cultura verifica-se praticamente o inverso do tipo acima referido. Aqui, há preocupação com o bem-estar da pessoa. O ambiente é amigável e estável quanto à garantia de emprego. Não há exigência de se alcançar alto grau de desempenho. Como consequência, na relação entre as variáveis do Sistema de Recompensas versos Cultura Empresarial (preocupação com pessoas e preocupação com desempenho), há relativo equilíbrio. Na mesma escala variam as expectativas quanto a crescimento profissional e autodesenvolvimento por parte dos empregados.

Cultura exigente: tipo de cultura orientado para resultados. Nele, as recompensas – normalmente, de natureza pecuniária – variam em função das performances. Em virtude de haver grande valorização do desempenho, a competitividade é enfatizada sob todos os aspectos, o que torna o ambiente instável e menos seguro em comparação ao vislumbrado na cultura cuidadosa. Pode-se dizer que, neste tipo, as variáveis preocupação com pessoas e preocupação com performance, são inversamente proporcionais. Ou seja: quanto maior o prêmio pela excelência nas performances, menor a preocupação com bem-estar do empregado enquanto pessoa, e vice-versa.

Cultura integrativa: como o próprio nome denuncia, este tipo de cultura busca, através da combinação entre a valorização da pessoa e de suas performances, atingir o equilíbrio quanto aos objetivos organizacionais, o lucro financeiro e a pessoa em si mesma. Em teoria, o ambiente é dinâmico e estimulante.  Trabalha-se com a expectativa de atração e retenção de talentos. As recompensas são superiormente significativas e as performances – espera-se – pautam-se pela excelência. As preocupações com a pessoa e com a performance variam na mesma medida e sentido. Os prêmios pela alta performance crescem na mesma proporção em que cresce a valorização do bem-estar da pessoa.


Equipes #4 – Dimensão da Cultura Organizacional nas Instituições

Os aspectos da cultura organizacional estão agrupados em níveis, e formam padrões de comportamentos que, no plano cognitivo, possibilitam a passagem do simbólico para o concreto. Determinam tendências que deverão transformarem-se em pressupostos da cultura estabelecida. Então, consolidar-se-ão como valores compartilhados pelos membros da organização.

Schein apud Freitas (1991, p.10), estrutura níveis que delimitam domínios específicos. Estes domínios equivalem a categorias epistemo-antropológicas que estão divididas em artefatos e criações, valores e pressupostos básicos, etc. Estes, por sua vez, estão agrupados em crenças e pressupostos, ritos, rituais e cerimônias, histórias e mitos, tabus, heróis, etc.


Equipes #3 – Conceito de Cultura Organizacional

Etimologicamente a palavra cultura tem sua origem no termo “colere”, oriundo do latim, e significa cultivar. Santos (2006, p. 110) define cultura como algo que “[…] diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação, ou então de grupos no interior de uma sociedade”.

Quadro que permite idear o conceito de cultura como sendo o fenômeno cujo significado está ligado ao cultivo e a manutenção do conjunto das atividades humanas; às relações que os homens formam entre si; aos processos de interação, que engendram os mecanismos de comunicação e de linguagem que, por sua vez, determinam o conjunto de conhecimentos, crenças, leis, costumes, etc.

Evocando o conceito de cultura nas organizações, Robbins (1999, p. 374) relata que as  organizações se constituíam num meio através do qual se pretendia controlar pessoas, mas que, em meados dos anos 80 deu-se uma mudança gradativa, haja vista que organizações são mais do que formas de controle. “Elas têm personalidade também, como os indivíduos.”

Ao inserir o conceito de cultura nas organizações, Schein (2009, p. 1) descreve que introduzindo a cultura no plano da organização, pode-se verificar como a cultura é instituída, vivenciada e manipulada de modo a fornecer significado aos membros do grupo.

Farias (2002) relata que os símbolos instituídos numa organização (expressões verbais e visuais, juntamente com as mensagens expressas por produtos e propagandas) estruturam a formação da cultura, que, por sua vez, moldará a identidade organizacional.


Equipes #2 – Introdução ao Estudo

A cultura de uma organização empresarial gira em torno das crenças de seu fundador, juntamente com o objetivo de subsistência (lucro), aliados à missão (função social) da organização. Em síntese, é constituída da filosofia dos seus fundadores, somada ao conjunto de crenças e valores em função dos quais as pessoas (empregados) assumirão  comportamentos  segundo a práxis instituída. Essa mistura de elementos produzirá uma identidade em virtude da qual a empresa será reconhecida.

Assumindo cultura organizacional como a fusão de elementos oriundos da intersecção de universos variados que encontram suas limitações na subjetividade inerente à natureza humana, é possível entender o valor estratégico do tratamento dado à cultura organizacional pelas empresas, contemporaneamente.

Pessoas de universos e realidades distintas reúnem-se, num espaço específico, para, em dadas circunstâncias, produzir elementos que, simbolicamente, se encaixam num contexto de necessidade ou de carência para um grupo ou comunidade.

Com esta linha de raciocínio, pretende-se apropriar de um conhecimento mais puro sobre a cultura instituída nas organizações empresariais, de modo a estabelecer indicadores relativos aos componentes antropológicos necessários a melhor compreensão do que seja cultura organizacional.

A cultura organizacional é constituída de elementos que permitem compreendê-la e classificá-la de acordo com modelos testados e validados pelo empirismo científico dos estudiosos. Estes elementos, estruturados em níveis, classificam-se em artefatos e criações, valores e pressupostos básicos, nos quais cada categoria engloba componentes do seu domínio cognitivo.

Os artefatos dizem respeito ao conjunto de objetos materiais produzidos/adquiridos com vista ao desempenho das atividades cotidianas; os valores, aos fundamentos que determinam os tipos de comportamento através dos quais se expressa a orientação por aspectos da filosofia dos fundadores da organização; os pressupostos básicos, às relações com o ambiente e à natureza da realidade, perceptíveis através de crenças, rituais e cerimônias, histórias e mitos, tabus, heróis; etc.

Relativamente às tipologias da cultura organizacional, destaca-se a divisão global em dois grandes grupos: o das organizações com fins lucrativos, que englobam todas as organizações empresariais; e o grupo das organizações sem fins lucrativos, no qual estão as ONGs, instituições filantrópicas, etc.

Como cerne do estudo, tratar-se-á do desenvolvimento de equipes numa perspectiva que relaciona a fisiologia organizacional empresarial à performance laboral individual e coletiva. Com isto, pretende-se ressaltar a importância do alinhamento entre os valores do sujeito que disponibiliza sua força de trabalho e os da instituição a qual se vincula. Destaca, ainda, a importância de se investir em equipes como forma de aumentar a produtividade baseada em princípios de auto responsabilidade como viabilizadora da excelência nos processos criativo-operacionais.

O estudo menciona a prerrogativa da organização em investir em equipes visando a evitar condições opressivas de trabalho e estimular a produtividade. Lança mão de três premissas, segundo as quais, fundamentam-se os pilares para a o atingimento de níveis elevados de comprometimento, realização e entrega.

Abordar-se-á, ainda, a metodologia da pesquisa, onde será traçado o perfil do SFIEC, instituição em foco, considerando os elementos básicos da cultura organizacional tratados no início do estudo. Procedimento por meio do qual, pretende-se verificar a validade das teorias tradicionais, que apregoam a materialização da cultura através dos símbolos de natureza concreta, como os artefatos, e de natureza subjetiva, como os pressupostos, passíveis de serem captados somente através da penetração no conjunto de verdades tácitas existentes em cada organização.

Dispostos os elementos, sentam-se as bases para realização do estudo de campo no qual foi aplicado o questionário com vistas a confirmação das informações sobre o estilo administrativo predominante e sua influência par a formação de equipes no Sistema FIEC.

O estudo de campo, deu-se com a realização de um questionário elaborado com base nos sistemas administrativos de Rensis Likert (1903-1981), orientados para identificar o modelo administrativo predominante numa dada instituição.


Equipes #1 -Resumo do Estudo

O surgimento de equipes de trabalho no âmbito das empresas é um assunto bastante relevante para o contexto das organizações do século XXI. Compreender como um grupo de trabalho ganha consistência ao ponto de tornar-se equipe é um fenômeno merecedor de especial atenção. Nesse sentido, da necessidade de se compreender tal fenômeno e da importância que isto tem para a identificação de oportunidades de refinamentos quanto à dinâmica funcional das organizações com vistas ao aprimoramento do papel dos profissionais de RH, decorre a finalidade deste estudo. Pensar sobre a coerência entre a filosofia e a cultura das organizações; relacioná-las com o modo segundo o qual operam para entender sua fisiologia é a proposta desta pesquisa. Dessa forma, baseando-se nos sistemas administrativos de Rensis Likert, será delineado, por meio de estudo de campo, o perfil da empresa estudada com o objetivo de saber quais os traços culturais que marcam, facilitam, dificultam ou, simplesmente, não se aplicam à formação de equipes alinhadas à cultura organizacional. Pretende-se, com isso, apropriar-se de um conhecimento tácito que permita contribuir com alternativas concretas para a questão proposta.

Palavras-chaves: Cultura Organizacional; Trabalho em Equipe; Recursos Humanos.


EQUIPES ## – Estudo – Apresentação

As características mais marcantes da contemporaneidade para todos os profissionais são, possivelmente, 1) a revolução tecnológica que ora vivenciamos e 2) a velocidade da informação. Juntos, esses 2 aspectos deslocam o eixo sobre o qual temos sustentado nossas relações profissionais individual e coletivamente.  Portanto, o momento exige uma postura de atenção e de disposição para assumir responsabilidades na gestão das mudanças. Para tanto, buscar aprender continuamente é a forma mais saudável de lidar com as disrupções. Nesse contexto, colaborar com entendimentos e compartilhar aprendizados é a melhor forma de desenvolver inteligência e de criar condições para agir eficazmente sobre as circunstâncias.

Assim, visando contribuir com entendimentos que informem sobre como a formação de equipes de trabalho alinhadas com a cultura organizacional pode ser um fator de competitividade para as empresas, a partir deste e, pelos próximos 13 posts, apresento o artigo do estudo realizado como requisito para conclusão da Pós-Graduação em Administração de Recursos Humanos, pela Universidade Federal do Ceará-UFC, sob orientação do Professor Dr. Marcos Antônio Martins Lima, cujo título é “A FORMAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DE EQUIPES ALINHADAS À CULTURA ORGANIZACIONAL: ESTUDO DE CAMPO REALIZADO NA FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO CEARÁ-FIEC”.


Linguagem #16 – Referências Bibliográficas

ALENCAR, Marta Vitória de. Da teoria pictórica aos jogos de linguagem. Revista Discutindo Filosofia, São Paulo, n. 9, ano 2, p. 47-49.

BUCHHOLZ, Kai. Compreender Wittgenstein. Tradução de Vilmar Schneider. Petrópolis: Vozes, 2008. (Série Compreender).

DENETT, Daniel; MACRONE, Michael. Wittgenstein. Disponível em: <http://www.geocities.com/Athens/4539/o_mundo_consiste_de_fatos.htm&gt;. Acesso em: 20 ago. 2008.

FLUSSER, Vilém. Língua e realidade. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2004.

GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo. Palavra e Verdade na Filosofia Antiga e na Psicanálise. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

GLOCK, Hans-Johann. Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MACHADO, Alexandre Noronha. As Investigações Filosóficas de Wittgenstein: Estilo e Método. In: Colóquio Prazer do Texto, 2., 2006, Salvador. Anais eletrônicos…Salvador: UFBA, 2006. Disponível em: http://alexandremachado.50webs.com/pesquisa/comunicacoes/investigacoes.pdf&gt;. Acesso em: 21 set. 2008.

MARQUES, José Oscar de A. Espaço e Tempo no Tractatus de Wittgenstein. In: ÉVORA, F.R.R. (org.). Espaço e Tempo. Campinas: CLE-Unicamp, 1995. p. 109-131. Disponível em: <http://www.unicamp.br/~jmarques/pesq/Espaco_e_Tempo_no_Tractatus_de_Wittgenstein.pdf&gt;. Acesso em: 16 ago. 2008.

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004.

PLATÃO. Crátilo. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.

REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1994. (Série História da Filosofia).

SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Coleção Primeiros Passos).

SCRUTON, Roger. Introdução à Filosofia Moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. p. 268-281. Disponível em: <http://www.cfh.ufsc.br/~mafkfil/scruton.htm&gt;. Acesso em: 19 ago. 2008.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

WITTGENSTEIN. São Paulo: Nova Cultural, 1989. (Coleção Os Pensadores)


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Linguagem #15 – CONCLUSÃO

Quando iniciamos este trabalho, delimitamos nosso percurso intelectual no projeto de monografia, sob a forma de sumário. Agora que chegamos ao momento final da pesquisa, é hora de avaliar se nossos objetivos foram atingidos e de que forma o foram. No primeiro capítulo, buscamos realizar uma contextualização da vida e da obra de Wittgenstein, de modo que pudéssemos adentrar seu pensamento por meio das circunstancialidades nas quais a obra estudada está envolta. Na primeira parte desse capítulo, enfatizamos a trajetória intelectual do autor e as relações que se deram em torno da perspectiva teórica, de maneira a poder perceber como os acontecimentos influenciaram a conhecida reviravolta pragmática. Na segunda parte, relatamos um ponto fundamental de sua teoria, que culmina com a relativização do paradigma da função designativa da linguagem como concepção de uma linguagem ideal. Já na terceira e última parte desse capítulo, destacamos a transformação através da qual Wittgenstein chega à descoberta da função designativa da linguagem como apenas uma entre tantas outras possíveis, e esta viria a ser mesmo não um instrumento de comunicação de um conhecimento já realizado, mas condição de possibilidade para a realização do conhecimento humano enquanto tal. Diante de tais elucidações, acreditamos ter cumprido os objetivos propostos para esse capítulo.

Na primeira parte do segundo capítulo, analisamos a metodologia de Wittgenstein em suas principais obras, ocasião na qual enfatizamos, de forma mais apropriada, a reviravolta metodológica já diversas vezes mencionada neste estudo. Percebemos que nosso filósofo aplicou a si próprio o mesmo pragmatismo que impunha aos escritos de terceiros. Entre pesquisas e analogias, optamos por denominar seu método, na obra estudada, de descritivo-crítico pelos motivos anteriormente mencionados. Na segunda parte, relacionamos as categorias centrais das Investigações Filosóficas com os fundamentos platônico-aristotélicos, visto serem imprescindíveis para que Wittgenstein atingisse seus próprios fundamentos. Platão, por tratar-se do precursor no estudo da linguagem; Aristóteles, por estabelecer as bases sobre as quais a linguagem seria realizada, sendo esta uma estrutura lógica em que o pensamento seria a relação lógica entre o mundo (a realidade) e a linguagem. Na terceira parte, salientamos o rompimento entre a filosofia tradicional e a contemporânea, e encontramos, justamente em Wittgenstein, o elo entre essas duas grandes épocas. Esse filósofo foi o último representante do pensamento filosófico tradicional e o primeiro do contemporâneo e, como tal, responsabilizou-se pela quebra dos paradigmas que os separam fundamentalmente. Se Wittgenstein não respondeu a todas as questões decorrentes desse rompimento, tem, pelo menos, o mérito de havê-lo rompido, o que, por si só, é algo louvável. Assim, damos conta de mais um capítulo cujo desfecho converge rumo ao proposto para tal.

No terceiro capítulo, na primeira parte, tratamos dos fenômenos que se configuram como plano de fundo de toda a argumentação em torno da obra wittgensteiniana: a realidade física, que Wittgenstein chama de totalidade dos fatos e cuja linguagem tenta abarcar; a consciência, que supõe todo e qualquer agir humano em torno da realidade; e a subjetividade, que, para o filósofo em evidência, é a forma pela qual a linguagem se manifesta indeterminada. Na segunda parte, concebemos uma estética da linguagem a partir das noções colhidas nas duas principais categorias tratadas nas Investigações Filosóficas: as formas de vida e os jogos de linguagem. Wittgenstein define a forma de vida como sendo o contexto de ação no qual a linguagem se desenvolve (esta é sua imagem), e o jogo de linguagem como sendo a relação entre cultura e linguagem (esta é sua fisiologia). Por fim, na terceira parte desse último capítulo, buscamos criar condições para responder à pergunta em função da qual toda a argumentação foi estruturada. Questão esta recolhida das Investigações Filosóficas e respondida de modo a encontrar o assentimento de seu próprio autor. A significação de uma palavra é seu uso na linguagem – esta é a resposta para a questão central de nosso estudo. Agora, podemos dar por encerrada nossa argumentação.

Antes das considerações finais, julgamos necessário esclarecer que o pretendido com esta exposição não foi, de modo algum, demonstrar, ou provar nossos pontos de vista em relação à argumentação de Wittgenstein. Nosso objetivo primordial foi, concordando com o autor, procurar, na medida do possível, apresentar os fatos sem querer dar a eles uma segunda versão, pois concluímos que, para o trabalho filosófico, é mais importante a exposição, a explanação dos fatos em busca de uma proximidade maior com isto que se convencionou chamar de verdade, embora devamos concordar que alcançar uma verdade absoluta seja, de fato, impossível.

Finalmente, podemos dizer que a impressionante transformação espiritual pela qual Wittgenstein passou foi, certamente, determinante para a reviravolta linguístico-pragmática operada em sua vida. Tal acontecimento trouxe consequências radicais para todas as áreas do conhecimento na contemporaneidade. A linguagem, tradicionalmente concebida como uma imagem do mundo cuja principal função seria descrevê-lo, foi elevada ao status de condição de possibilidade de realização desse conhecimento, isto é, passou a ser o centro doador de significação dos fatos da realidade, visto que, com ela, conhecem-se e aprendem-se os fatos da realidade.

Nestes momentos finais, resta-nos ainda considerar o fato de que a concepção do fenômeno linguístico foi radicalmente modificada com Wittgenstein e a partir dele. Se, de forma geral, o senso comum porventura continua a ancorar suas experiências linguísticas em concepções tradicionais, podemos concordar que, cientificamente, essa concepção é, hoje, algo completamente defasado, o que nos leva a perceber a importância do pensamento filosófico de Wittgenstein para a contemporaneidade. Após a leitura dos escritos desse filósofo, é possível perceber que especialistas em linguagem, das diversas áreas do conhecimento, apropriam-se dessas descobertas no âmbito de suas respectivas profissões. Estudiosos das áreas da Semiótica, do Marketing, das Letras e da Linguística, em geral, têm se utilizado, cada vez mais, do legado wittgensteiniano, de modo a contribuir para o aperfeiçoamento de suas ideias.

A herança wittgensteiniana tem sido tratada, ao longo do tempo, sob as formas e os aspectos mais diversos, cada um contribuindo, com sua interpretação, para a expansão do conjunto da obra de Wittgenstein. Uns acusam outros de incorrer nos mais variados erros interpretativos, de considerar, ou de desconsiderar certos aspectos, contextos e relações nos quais o autor teria se baseado para chegar a suas descobertas. Independentemente do fato de haver interpretações certas ou erradas, o que fica é a relevância de todo o conjunto de argumentações desses estudiosos para o enriquecimento do conhecimento do fenômeno linguístico e desse fenômeno como condição para a evolução do conhecimento humano de modo geral.


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Linguagem #14 – A palavra enquanto unidade central de significação

A obra aqui explorada tem como cerne o estudo da palavra e seu uso no processo de interação social dos homens. Procura considerá-la em todas as formas e sob todos os aspectos, inclusive, a partir das classes gramaticais e das convenções que se dão em torno do processo linguístico. A palavra é o meio pelo qual o homem pode expressar todo o conjunto de signos linguísticos a que tem acesso. Sendo a palavra a unidade central de significação de nossa linguagem, é através dela que podemos acessar os infinitos significados da realidade, instrumentalizando-nos para interpretá-la. A palavra tem a propriedade da flexibilidade, isto é, guarda em si todos os componentes da significação. Mais que isso: quando associada a outras palavras, essa capacidade de significar sofre, por assim dizer, uma espécie de dilatação, permitindo que possamos, através do significado, expressar coisas, atos, processos e fenômenos. Se considerarmos, ainda, as circunstâncias nas quais as palavras são postas, elas vão além daquilo que, comumente, percebemos. Elas assumem formas, aspectos, modos e tempos que variam de acordo com os contextos em que se situam.

No primeiro capítulo deste trabalho, dissemos, conforme a obra estudada, que Wittgenstein vê, na palavra, a unidade central de significação de nosso sistema linguístico, de modo que ela é que torna possível a articulação do pensamento em frases, porquanto é fundamental para a forma humana de se expressar. Vejamos, nas palavras do autor, um exemplo do que acima é dito, ao se referir a certo escrito de Santo Agostinho na obra Confissões.

“[…] Nessas palavras temos, assim me parece, uma determinada imagem da essência da linguagem humana. A saber, esta: as palavras da linguagem denominam objetos – frases são ligações de tais denominações. – Nesta imagem da linguagem encontramos as raízes da idéia: cada palavra tem uma significação. Esta significação é agregada à palavra. É o objeto que a palavra substitui.”[1]

Temos, então, já no parágrafo primeiro das Investigações Filosóficas, o exemplo de um diálogo em que Wittgenstein enfatiza, de forma simples, a função designativa da linguagem. Isso, contudo, se a compreendermos de acordo com os parâmetros tradicionais.

Prosseguindo, porém, a leitura do mesmo parágrafo e fazendo-a com atenção, vemos, um pouco mais adiante, que o que nosso filósofo pretende mostrar é bem diferente do que nossa observação nos induz a fazer de modo imediato. Analisemos a conclusão do parágrafo:

[…] “mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‘vermelho’, e o que vai fazer com a palavra ‘cinco’?’ – Ora, suponho que ele aja como eu descrevi. As explicações têm em algum lugar um fim. – Mas qual é a significação da palavra ‘cinco’? – De tal significação nada foi falado aqui; apenas, de como a palavra ‘cinco’ é usada.”[2]

Esse fragmento ressalta o modo como a palavra está sendo empregada dentro da forma de vida que a precede. Notemos que, pela maneira tradicional de pensar, somos induzidos a procurar pelo significado da palavra em detrimento de sua situação contextual, o que, de certa forma, invalida a análise que se faz nessas condições, visto que, assim, o diálogo ficaria desprovido de sentido. Essa é, segundo Wittgenstein, uma ilusão causada pela gramática da língua, que privilegia o significando do conceito e deixa de considerar o modo como as palavras são empregadas dentro de um processo. Ao que parece, encontramos, assim, a chave do pensamento do segundo Wittgenstein.

Não é que a palavra substitua o objeto ao designá-lo; o que ela faz é afirmar a existência desse objeto em função de determinados referenciais. Estes, por sua vez, são colocados em segundo plano por nós quando aprendemos o uso da linguagem por meio das normas gramaticais. Isso ocorre em virtude de serem as normas idealizadas sem a consideração das infinitas formas de vidas em que um processo pode acontecer. Dessa maneira, nossa compreensão do signo se torna errada pelo fato de desconhecermos, ou de mal identificarmos o núcleo segundo o qual o significado se processa. Explicando melhor: se procuramos pelo significado de uma palavra considerando a palavra em si mesma, podemos acreditar num significado fixo e imutável – o conceito. No entanto, se procurarmos pelo significado de uma palavra considerando a forma de vida na qual ela está inserida e a maneira como ela é empregada, teremos um significado variável de acordo com as circunstâncias. E, como, na práxis linguística cotidiana, isso é o que, de fato, acontece, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a palavra, enquanto unidade de significação, não guarda ela própria seu significado, mas que este se processa conforme o uso que dela é feito.

Diante do acima exposto, remetendo à introdução do nosso trabalho, estando amplamente familiarizado com as categorias fundamentais do pensamento wittgensteiniano, e acreditando haver criado as condições necessárias para realização de nosso intento, podemos, então, responder, de forma apropriada, por que Wittgenstein diz, em sua obra Investigações Filosóficas, que a significação de uma palavra é seu uso na linguagem.

Durante todo o percurso que, agora, será concluído, procuramos enfatizar, de acordo com as obras estudadas, a questão dos contextos enquanto instância central de significação das expressões linguísticas. Os contextos, os quais Wittgenstein também chama de formas de vida, retratam o fenômeno que se manifesta através da interação social dos homens. É esse fenômeno, precisamente, a origem de todo o conjunto de significações presentes numa forma de vida: o jogo de linguagem. Esse jogo é o movimento que dá forma a uma forma de vida. É ele que determina o que se pode predicar de uma forma de vida e aquilo que nela é predicável. É, pois, resultado do processo de interação dos homens. Nessa perspectiva, Wittgenstein ressalta a maneira como são usadas as palavras dentro de um jogo, salientando a força das circunstâncias sobre o sentido das palavras e considerando os arredores do processo como imprescindíveis à materialização dos fenômenos linguísticos. Nesse sentido, conforme Oliveira (Oliveira, 2004), em sua Reviravolta Linguístico-pragmática, “a significação das palavras só pode ser esclarecida por meio do exame das formas de vida, dos contextos em que essas palavras ocorrem, pois é o uso que decide sobre a significação das expressões lingüísticas”[3].

Ao que constatamos no § 43 das Investigações Filosóficas, “pode-se, para uma grande classe de casos de utilização da palavra ‘significação’ – senão para todos os casos de sua utilização -, explicá-la assim: a significação de uma palavra é seu uso na linguagem”[4]. E ainda: “Todo signo sozinho parece morto. O que lhe dá vida? – No uso, ele vive. Tem então a viva respiração em si? – Ou o uso é sua respiração?”[5].

Desse modo, como tivemos oportunidade de constatar, em quase todos os momentos do estudo dessa obra, fica nossa questão fundamental respondida assim: o significado das palavras se dá por seu uso, ou seja, pela forma como a utilizamos quando interagimos com os demais. Não há significado fixo, imutável. Se assim fosse, nossa comunicação seria mecânica e desprovida de sentido na maioria das vezes. Para compreendermos o significado de uma palavra, temos que levar em conta os arredores do processo: as circunstâncias, os elementos extralinguísticos – o contexto de maneira geral.

Finalmente, após tantos parênteses e pontos finais, cremos ter cumprido a última etapa de nosso trabalho. Considerando a finalidade com a qual esta pesquisa foi realizada, isto é, a de tratar dos fundamentos da linguagem levando em conta as perspectivas que se abrem para uma nova forma de pensá-la no estágio atual de conhecimento da humanidade, esmiuçamos a obra de Wittgenstein, pondo-a em relação com antigas e novas categorias de pensamento, inclusive, trazendo, para o corpo deste trabalho, outras já bem esgotadas nos dias de hoje – como é possível notar. Salientamos que, para esta composição, privilegiamos o uso de uma linguagem simples, que pudesse, de forma clara, expressar nosso posicionamento em relação às orientações encontradas nas diversas fontes de pesquisa e, sobretudo, na obra que nos inspirou a realizar esse constructo. Esperamos, com isso, contribuir para o crescimento das pesquisas em torno desse tema, que, por si mesmo, já é bastante instigante, de modo que, agora, podemos, sem mais pormenores, colocar o último e definitivo ponto final.


[1] WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 1. p. 9.

[2] Ibid., § 1, p. 10.

[3] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 132.

[4] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 43, p. 28.

[5] Ibid., § 432, p. 131.


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Linguagem #13 – Estética e fisiologia da linguagem

Dissemos anteriormente que as palavras adquirem significação mediante as circunstâncias, e que as circunstâncias se vinculam às maneiras de interação social dos homens. Se assim o é, então, é pela análise das formas de vida que podemos vir a compreender nossa própria linguagem. Concebendo o termo forma de vida, Wittgenstein nomeou as relações que se dão espontaneamente, entre cultura e linguagem, dentro do contexto de ação em que são efetivadas. Para ele, a forma de vida é um fenômeno que deve ser compreendido como resultado de processos linguísticos e extralinguísticos. Desse modo, fazer uso da linguagem é uma prática que deve ser encarada como outras ações por nós desempenhadas corriqueiramente. A forma de vida é, nesse sentido, o contexto geral em que se desenvolve a linguagem humana, melhor dizendo, é a imagem da linguagem. É nela que se aprende o comportar-se frente à variabilidade das situações e é por meio dela que se dá a própria história do homem.

Às relações que se dão no âmbito de uma forma de vida Wittgenstein chama jogo de linguagem. Este é um fenômeno intrínseco à forma de vida. É um movimento composto de elementos linguísticos e extralinguísticos que manifestam a fisiologia da linguagem no instante e na forma em que esta se realiza. Sobre isso, disse Wittgenstein: “Chamarei também de ‘jogos de linguagem’ o conjunto da linguagem e das atividades com as quais está interligada”[1]. O jogo de linguagem é o meio pelo qual se expressa, através de palavras ou de outras formas, o sentido dos signos relacionados a uma forma de vida específica, considerando-se a indeterminabilidade das situações e as possíveis formas que podem assumir quando postas em relação com outros referenciais.

O que Wittgenstein quer salientar é o caráter de fluidez da realidade, manifestado nos jogos de linguagem, dentro do contexto da forma de vida. Nos termos do autor, “o termo ‘jogo de linguagem’ deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida”[2]. O jogo de linguagem não é produto de uma forma de vida, mas algo que ocorre simultaneamente a ela, numa relação íntima e concatenada; não podem, assim, ser desvinculados um do outro. É um jogo regido por regras que, todavia, não se impõem de maneira rígida, permitindo que os participantes possam escolher o jeito mais adequado, ou mesmo, mais confortável, de se manifestarem mediante o uso das palavras. Isso tendo em vista que não há como estabelecer uma regra específica para cada ação, ou prever determinada ação em virtude de uma regra pré-estabelecida. Wittgenstein enfatiza:

“Que diremos então? Você tem regras prontas para tais casos – que digam se se podem ainda chamar a isto de ‘poltrona’?’. Mas elas nos escapam quando usamos a palavra ‘poltrona’; e devemos dizer que não ligamos a esta palavra nenhuma significação, uma vez que não estamos equipados com regras para todas as possibilidades de seu emprego?”[3]


[1] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 7, p. 12.

[2] Ibid., § 23, p. 18.

[3] WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 80. p. 49.


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