Linguagem #15 – CONCLUSÃO

Quando iniciamos este trabalho, delimitamos nosso percurso intelectual no projeto de monografia, sob a forma de sumário. Agora que chegamos ao momento final da pesquisa, é hora de avaliar se nossos objetivos foram atingidos e de que forma o foram. No primeiro capítulo, buscamos realizar uma contextualização da vida e da obra de Wittgenstein, de modo que pudéssemos adentrar seu pensamento por meio das circunstancialidades nas quais a obra estudada está envolta. Na primeira parte desse capítulo, enfatizamos a trajetória intelectual do autor e as relações que se deram em torno da perspectiva teórica, de maneira a poder perceber como os acontecimentos influenciaram a conhecida reviravolta pragmática. Na segunda parte, relatamos um ponto fundamental de sua teoria, que culmina com a relativização do paradigma da função designativa da linguagem como concepção de uma linguagem ideal. Já na terceira e última parte desse capítulo, destacamos a transformação através da qual Wittgenstein chega à descoberta da função designativa da linguagem como apenas uma entre tantas outras possíveis, e esta viria a ser mesmo não um instrumento de comunicação de um conhecimento já realizado, mas condição de possibilidade para a realização do conhecimento humano enquanto tal. Diante de tais elucidações, acreditamos ter cumprido os objetivos propostos para esse capítulo.

Na primeira parte do segundo capítulo, analisamos a metodologia de Wittgenstein em suas principais obras, ocasião na qual enfatizamos, de forma mais apropriada, a reviravolta metodológica já diversas vezes mencionada neste estudo. Percebemos que nosso filósofo aplicou a si próprio o mesmo pragmatismo que impunha aos escritos de terceiros. Entre pesquisas e analogias, optamos por denominar seu método, na obra estudada, de descritivo-crítico pelos motivos anteriormente mencionados. Na segunda parte, relacionamos as categorias centrais das Investigações Filosóficas com os fundamentos platônico-aristotélicos, visto serem imprescindíveis para que Wittgenstein atingisse seus próprios fundamentos. Platão, por tratar-se do precursor no estudo da linguagem; Aristóteles, por estabelecer as bases sobre as quais a linguagem seria realizada, sendo esta uma estrutura lógica em que o pensamento seria a relação lógica entre o mundo (a realidade) e a linguagem. Na terceira parte, salientamos o rompimento entre a filosofia tradicional e a contemporânea, e encontramos, justamente em Wittgenstein, o elo entre essas duas grandes épocas. Esse filósofo foi o último representante do pensamento filosófico tradicional e o primeiro do contemporâneo e, como tal, responsabilizou-se pela quebra dos paradigmas que os separam fundamentalmente. Se Wittgenstein não respondeu a todas as questões decorrentes desse rompimento, tem, pelo menos, o mérito de havê-lo rompido, o que, por si só, é algo louvável. Assim, damos conta de mais um capítulo cujo desfecho converge rumo ao proposto para tal.

No terceiro capítulo, na primeira parte, tratamos dos fenômenos que se configuram como plano de fundo de toda a argumentação em torno da obra wittgensteiniana: a realidade física, que Wittgenstein chama de totalidade dos fatos e cuja linguagem tenta abarcar; a consciência, que supõe todo e qualquer agir humano em torno da realidade; e a subjetividade, que, para o filósofo em evidência, é a forma pela qual a linguagem se manifesta indeterminada. Na segunda parte, concebemos uma estética da linguagem a partir das noções colhidas nas duas principais categorias tratadas nas Investigações Filosóficas: as formas de vida e os jogos de linguagem. Wittgenstein define a forma de vida como sendo o contexto de ação no qual a linguagem se desenvolve (esta é sua imagem), e o jogo de linguagem como sendo a relação entre cultura e linguagem (esta é sua fisiologia). Por fim, na terceira parte desse último capítulo, buscamos criar condições para responder à pergunta em função da qual toda a argumentação foi estruturada. Questão esta recolhida das Investigações Filosóficas e respondida de modo a encontrar o assentimento de seu próprio autor. A significação de uma palavra é seu uso na linguagem – esta é a resposta para a questão central de nosso estudo. Agora, podemos dar por encerrada nossa argumentação.

Antes das considerações finais, julgamos necessário esclarecer que o pretendido com esta exposição não foi, de modo algum, demonstrar, ou provar nossos pontos de vista em relação à argumentação de Wittgenstein. Nosso objetivo primordial foi, concordando com o autor, procurar, na medida do possível, apresentar os fatos sem querer dar a eles uma segunda versão, pois concluímos que, para o trabalho filosófico, é mais importante a exposição, a explanação dos fatos em busca de uma proximidade maior com isto que se convencionou chamar de verdade, embora devamos concordar que alcançar uma verdade absoluta seja, de fato, impossível.

Finalmente, podemos dizer que a impressionante transformação espiritual pela qual Wittgenstein passou foi, certamente, determinante para a reviravolta linguístico-pragmática operada em sua vida. Tal acontecimento trouxe consequências radicais para todas as áreas do conhecimento na contemporaneidade. A linguagem, tradicionalmente concebida como uma imagem do mundo cuja principal função seria descrevê-lo, foi elevada ao status de condição de possibilidade de realização desse conhecimento, isto é, passou a ser o centro doador de significação dos fatos da realidade, visto que, com ela, conhecem-se e aprendem-se os fatos da realidade.

Nestes momentos finais, resta-nos ainda considerar o fato de que a concepção do fenômeno linguístico foi radicalmente modificada com Wittgenstein e a partir dele. Se, de forma geral, o senso comum porventura continua a ancorar suas experiências linguísticas em concepções tradicionais, podemos concordar que, cientificamente, essa concepção é, hoje, algo completamente defasado, o que nos leva a perceber a importância do pensamento filosófico de Wittgenstein para a contemporaneidade. Após a leitura dos escritos desse filósofo, é possível perceber que especialistas em linguagem, das diversas áreas do conhecimento, apropriam-se dessas descobertas no âmbito de suas respectivas profissões. Estudiosos das áreas da Semiótica, do Marketing, das Letras e da Linguística, em geral, têm se utilizado, cada vez mais, do legado wittgensteiniano, de modo a contribuir para o aperfeiçoamento de suas ideias.

A herança wittgensteiniana tem sido tratada, ao longo do tempo, sob as formas e os aspectos mais diversos, cada um contribuindo, com sua interpretação, para a expansão do conjunto da obra de Wittgenstein. Uns acusam outros de incorrer nos mais variados erros interpretativos, de considerar, ou de desconsiderar certos aspectos, contextos e relações nos quais o autor teria se baseado para chegar a suas descobertas. Independentemente do fato de haver interpretações certas ou erradas, o que fica é a relevância de todo o conjunto de argumentações desses estudiosos para o enriquecimento do conhecimento do fenômeno linguístico e desse fenômeno como condição para a evolução do conhecimento humano de modo geral.


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Linguagem #14 – A palavra enquanto unidade central de significação

A obra aqui explorada tem como cerne o estudo da palavra e seu uso no processo de interação social dos homens. Procura considerá-la em todas as formas e sob todos os aspectos, inclusive, a partir das classes gramaticais e das convenções que se dão em torno do processo linguístico. A palavra é o meio pelo qual o homem pode expressar todo o conjunto de signos linguísticos a que tem acesso. Sendo a palavra a unidade central de significação de nossa linguagem, é através dela que podemos acessar os infinitos significados da realidade, instrumentalizando-nos para interpretá-la. A palavra tem a propriedade da flexibilidade, isto é, guarda em si todos os componentes da significação. Mais que isso: quando associada a outras palavras, essa capacidade de significar sofre, por assim dizer, uma espécie de dilatação, permitindo que possamos, através do significado, expressar coisas, atos, processos e fenômenos. Se considerarmos, ainda, as circunstâncias nas quais as palavras são postas, elas vão além daquilo que, comumente, percebemos. Elas assumem formas, aspectos, modos e tempos que variam de acordo com os contextos em que se situam.

No primeiro capítulo deste trabalho, dissemos, conforme a obra estudada, que Wittgenstein vê, na palavra, a unidade central de significação de nosso sistema linguístico, de modo que ela é que torna possível a articulação do pensamento em frases, porquanto é fundamental para a forma humana de se expressar. Vejamos, nas palavras do autor, um exemplo do que acima é dito, ao se referir a certo escrito de Santo Agostinho na obra Confissões.

“[…] Nessas palavras temos, assim me parece, uma determinada imagem da essência da linguagem humana. A saber, esta: as palavras da linguagem denominam objetos – frases são ligações de tais denominações. – Nesta imagem da linguagem encontramos as raízes da idéia: cada palavra tem uma significação. Esta significação é agregada à palavra. É o objeto que a palavra substitui.”[1]

Temos, então, já no parágrafo primeiro das Investigações Filosóficas, o exemplo de um diálogo em que Wittgenstein enfatiza, de forma simples, a função designativa da linguagem. Isso, contudo, se a compreendermos de acordo com os parâmetros tradicionais.

Prosseguindo, porém, a leitura do mesmo parágrafo e fazendo-a com atenção, vemos, um pouco mais adiante, que o que nosso filósofo pretende mostrar é bem diferente do que nossa observação nos induz a fazer de modo imediato. Analisemos a conclusão do parágrafo:

[…] “mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‘vermelho’, e o que vai fazer com a palavra ‘cinco’?’ – Ora, suponho que ele aja como eu descrevi. As explicações têm em algum lugar um fim. – Mas qual é a significação da palavra ‘cinco’? – De tal significação nada foi falado aqui; apenas, de como a palavra ‘cinco’ é usada.”[2]

Esse fragmento ressalta o modo como a palavra está sendo empregada dentro da forma de vida que a precede. Notemos que, pela maneira tradicional de pensar, somos induzidos a procurar pelo significado da palavra em detrimento de sua situação contextual, o que, de certa forma, invalida a análise que se faz nessas condições, visto que, assim, o diálogo ficaria desprovido de sentido. Essa é, segundo Wittgenstein, uma ilusão causada pela gramática da língua, que privilegia o significando do conceito e deixa de considerar o modo como as palavras são empregadas dentro de um processo. Ao que parece, encontramos, assim, a chave do pensamento do segundo Wittgenstein.

Não é que a palavra substitua o objeto ao designá-lo; o que ela faz é afirmar a existência desse objeto em função de determinados referenciais. Estes, por sua vez, são colocados em segundo plano por nós quando aprendemos o uso da linguagem por meio das normas gramaticais. Isso ocorre em virtude de serem as normas idealizadas sem a consideração das infinitas formas de vidas em que um processo pode acontecer. Dessa maneira, nossa compreensão do signo se torna errada pelo fato de desconhecermos, ou de mal identificarmos o núcleo segundo o qual o significado se processa. Explicando melhor: se procuramos pelo significado de uma palavra considerando a palavra em si mesma, podemos acreditar num significado fixo e imutável – o conceito. No entanto, se procurarmos pelo significado de uma palavra considerando a forma de vida na qual ela está inserida e a maneira como ela é empregada, teremos um significado variável de acordo com as circunstâncias. E, como, na práxis linguística cotidiana, isso é o que, de fato, acontece, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a palavra, enquanto unidade de significação, não guarda ela própria seu significado, mas que este se processa conforme o uso que dela é feito.

Diante do acima exposto, remetendo à introdução do nosso trabalho, estando amplamente familiarizado com as categorias fundamentais do pensamento wittgensteiniano, e acreditando haver criado as condições necessárias para realização de nosso intento, podemos, então, responder, de forma apropriada, por que Wittgenstein diz, em sua obra Investigações Filosóficas, que a significação de uma palavra é seu uso na linguagem.

Durante todo o percurso que, agora, será concluído, procuramos enfatizar, de acordo com as obras estudadas, a questão dos contextos enquanto instância central de significação das expressões linguísticas. Os contextos, os quais Wittgenstein também chama de formas de vida, retratam o fenômeno que se manifesta através da interação social dos homens. É esse fenômeno, precisamente, a origem de todo o conjunto de significações presentes numa forma de vida: o jogo de linguagem. Esse jogo é o movimento que dá forma a uma forma de vida. É ele que determina o que se pode predicar de uma forma de vida e aquilo que nela é predicável. É, pois, resultado do processo de interação dos homens. Nessa perspectiva, Wittgenstein ressalta a maneira como são usadas as palavras dentro de um jogo, salientando a força das circunstâncias sobre o sentido das palavras e considerando os arredores do processo como imprescindíveis à materialização dos fenômenos linguísticos. Nesse sentido, conforme Oliveira (Oliveira, 2004), em sua Reviravolta Linguístico-pragmática, “a significação das palavras só pode ser esclarecida por meio do exame das formas de vida, dos contextos em que essas palavras ocorrem, pois é o uso que decide sobre a significação das expressões lingüísticas”[3].

Ao que constatamos no § 43 das Investigações Filosóficas, “pode-se, para uma grande classe de casos de utilização da palavra ‘significação’ – senão para todos os casos de sua utilização -, explicá-la assim: a significação de uma palavra é seu uso na linguagem”[4]. E ainda: “Todo signo sozinho parece morto. O que lhe dá vida? – No uso, ele vive. Tem então a viva respiração em si? – Ou o uso é sua respiração?”[5].

Desse modo, como tivemos oportunidade de constatar, em quase todos os momentos do estudo dessa obra, fica nossa questão fundamental respondida assim: o significado das palavras se dá por seu uso, ou seja, pela forma como a utilizamos quando interagimos com os demais. Não há significado fixo, imutável. Se assim fosse, nossa comunicação seria mecânica e desprovida de sentido na maioria das vezes. Para compreendermos o significado de uma palavra, temos que levar em conta os arredores do processo: as circunstâncias, os elementos extralinguísticos – o contexto de maneira geral.

Finalmente, após tantos parênteses e pontos finais, cremos ter cumprido a última etapa de nosso trabalho. Considerando a finalidade com a qual esta pesquisa foi realizada, isto é, a de tratar dos fundamentos da linguagem levando em conta as perspectivas que se abrem para uma nova forma de pensá-la no estágio atual de conhecimento da humanidade, esmiuçamos a obra de Wittgenstein, pondo-a em relação com antigas e novas categorias de pensamento, inclusive, trazendo, para o corpo deste trabalho, outras já bem esgotadas nos dias de hoje – como é possível notar. Salientamos que, para esta composição, privilegiamos o uso de uma linguagem simples, que pudesse, de forma clara, expressar nosso posicionamento em relação às orientações encontradas nas diversas fontes de pesquisa e, sobretudo, na obra que nos inspirou a realizar esse constructo. Esperamos, com isso, contribuir para o crescimento das pesquisas em torno desse tema, que, por si mesmo, já é bastante instigante, de modo que, agora, podemos, sem mais pormenores, colocar o último e definitivo ponto final.


[1] WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 1. p. 9.

[2] Ibid., § 1, p. 10.

[3] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 132.

[4] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 43, p. 28.

[5] Ibid., § 432, p. 131.


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Linguagem #12 – Realidade, consciência e subjetividade

A maneira como a realidade é percebida conta em muito para a formação disto que chamamos de significação. Por isso achamos conveniente abrir espaço para abordá-la, levando-se em conta sua aplicação como pano de fundo para toda a nossa argumentação. O segundo Wittgenstein pretende desvincular da concepção tradicional de realidade toda a conotação metafísica que esta adquiriu com o tempo, pelo uso que dela foi feito. Realidade, em sua compreensão, é algo que se constrói cotidianamente, nas relações que os homens formam entre si. Wittgenstein não define com todos os termos o que seja realidade, mas oferece contextos que nos levam a induzi-la a partir de uma noção que ganha corpo pela análise dos contextos enfatizados em todo corpo da obra Investigações Filosóficas.

Wittgenstein busca ajustar o sentido de realidade às práticas linguísticas efetivadas. Melhor explicando: assim como deseja que o fenômeno linguístico seja concebido pela imanência de sua prática, deseja colocar o entendimento de realidade na ordem das coisas imanentes. Uma coisa existe efetivamente quando dela se pode predicar algo; quando se pode predicar algo de alguma coisa, essa coisa é tornada um fato. Considerando fato como a relação que existe entre o que ocorre e o que disso se predica, a realidade vem a ser, portanto, a totalidade dos fatos. Estabelecendo essa conexão como uma categoria de seu pensamento, Wittgenstein pretende, justamente, salientar o caráter relacional no qual baseia sua apreensão de realidade.

A consequência dessa concepção de realidade para o fenômeno da linguagem se reflete de forma impactante no processo cognoscitivo-linguístico, visto que implica também uma nova compreensão de consciência. Também desvinculada de concepções metafísicas, essa nova consciência é forjada numa espécie de intersubjetividade (Wittgenstein não formula propriamente uma teoria a esse respeito, o que impede uma argumentação mais aprofundada). É concebida num plano em que as subjetividades fiquem postas em relação direta, de modo a eliminar a noção de uma linguagem subjetivista e individualista.

“Individualista porque se abstrai da função comunicativa e interativa da linguagem. Subjetivista porque considera as convenções e regras linguísticas como dados imediatos da intuição do sujeito falante, e não como resultado de um processo de socialização.”[1]

Isso nos leva a concluir que, se o fenômeno da linguagem é algo construído em comunidade – como, de fato, é – não poderia haver linguagem baseada numa consciência dessa espécie. Observamos que, para que essa linha de raciocínio tenha efeito, é preciso compreender essa noção de subjetivismo como um mal-entendido do pensamento tradicional, que considera as convenções que se dão em torno do fenômeno linguístico como elementos da subjetividade de quem comunica algo e não como fruto do processo de socialização do homem. “Como é possível nessa perspectiva a comunicação humana? Como é possível a linguagem como um fenômeno social? Que sentido tem descrever fenômenos psíquicos individuais, se os outros não têm acesso a essa dimensão?”[2]

Tanto não é possível que haja linguagem sem consciência como, também, não há consciência sem linguagem. Ciente disso, Wittgenstein pretende eliminar a concepção de uma linguagem mediada por fenômenos objetivos, de modo a permitir que o fenômeno linguístico possa fazer sentido dentro da noção de uma linguagem construída como resultado de processos de interações sociais. Busca identificar soluções para operar a transformação dos elementos subjetivos em fatos, de maneira que a passagem entre o simbólico e o concreto possa ser resolvida sem o apelo ontológico da metafísica. Já neste ponto da argumentação, cremos que a metafísica pode, por fim, ser substituída pela subjetividade que encontra, na consciência wittgensteiniana, o amparo para a realização dessa transição. Sendo a subjetividade a faculdade da interpretação, é por meio da intersubjetividade que se faz possível a relação entre uma linguagem imanente (como pretende Wittgenstein) e as coisas que, com ela, predicamos. Resumindo, diz Oliveira:

“Em suma, para Wittgenstein, as expressões lingüísticas têm sentido porque há hábitos determinados de manejar com elas, que são intersubjetivamente válidos. É precisamente o hábito que sanciona sua significação determinada e constitui o jogo de linguagem em questão, que é uma forma específica da atividade humana.”[3]


[1]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 125.

[2] Ibid., p. 134.

[3]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 141.


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Linguagem #11 – ESTÉTICA E FISIOLOGIA DO FENÔMENO DA LINGUAGEM

Neste capítulo, buscaremos, de acordo com a proposta deste estudo, responder, juntamente com Wittgenstein, à pergunta em função da qual este trabalho propriamente existe. Neste momento da exposição, daremos ênfase ao argumento do filósofo, à forma como seu raciocínio foi dirigido e à finalidade para a qual sua tese se destina. Sem que, de antemão, seja estabelecida uma ordem determinada para o cumprimento desta meta, retomaremos argumentos abordados nos capítulos anteriores, bem como agregaremos outros novos conforme haja exigência. Nossos esforços se concentrarão no sentido de realizar, a partir da apropriação das categorias fundamentais do pensamento de Wittgenstein, uma argumentação coesa que atenda amplamente as questões filosóficas propostas para esta pesquisa. Utilizaremo-nos de argumentação própria, procurando, porém, encontrar assentimento do autor de forma a poder demonstrar como sua teoria é tomada na contemporaneidade e as consequências dela para o pensamento filosófico como um todo. Finalmente, buscaremos realizar esse trabalho traduzindo os componentes de sua forma implícita para uma forma mais clara, segundo o entendimento que dela fazemos e de acordo com a orientação encontrada nas diversas fontes de pesquisa.


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Linguagem #10 – Wittgenstein, o último representante da …

Wittgenstein absorveu influências das mais variadas, como é possível notar na leitura de suas obras. Teve influências de diversos autores, entre os quais destacamos Boltzmann, Hertz, Schopenhauer, Frege, Russell, Kraus, loos, Weininger, Spengler, Sraffa e Moore[1]. Alguns desses, contemporâneos do filósofo em estudo, não receberam maior menção nesta pesquisa, em virtude de suas obras estarem mais diretamente relacionadas com o Tractatus. Já Platão e Aristóteles, que não têm uma relação direta com nosso filósofo, foram escolhidos para tanto por tratarem, de forma mais específica, dos fundamentos da linguagem e dá lógica. Nesse sentido, podemos situá-los como influências indispensáveis para a compreensão da segunda fase de Wittgenstein.

Situado entre duas significativas vertentes filosóficas, o Positivismo Lógico, do Círculo de Viena, e a Escola da Filosofia da Linguagem, do Grupo de Oxford, Wittgenstein influenciou bastante o pensamento de sua época. A escola do Círculo de Viena absorveu várias das ideias do filósofo em sua primeira fase, adotando, entre outras, a teoria do princípio da verificabilidade.[2] Necessário é dizer que nem tudo do trabalho de Wittgenstein foi adotado pelas escolas para as quais serviu de inspiração, como é o caso, por exemplo, da teoria da figuração, rejeitada pela escola. Mesmo assim, alguns de seus mais fiéis seguidores o reverenciam como sendo, ele, o pai do Positivismo Lógico. Fontes externas a nossa pesquisa indicam que isso não é verdade, o que, entretanto, é desnecessário demonstrar neste momento da argumentação. O Grupo de Oxford, por sua vez, adotou em muito a filosofia linguística de Wittgenstein. Também nesse caso, os seguidores mais assíduos chegaram a considerá-lo como o pai da Filosofia Linguística. Conforme indicações, Wittgenstein não foi, nem teve a pretensão de ser, o precursor dessa vertente filosófica; G.E. Moore seria o nome mais provável.[3]

A obra wittgensteiniana exerceu e ainda exerce forte influência no pensamento filosófico contemporâneo. A prova disso é que o filósofo traz, em seus ombros, o peso de haver sido o último representante da tradição e o primeiro da contemporaneidade. Responsabilidade que chamou para si, ao se rebelar contra o modelo o qual ele ajudou a construir.[4] Dessa forma, contribuiu em muito para a expansão do pensamento filosófico ocidental, afastando ao máximo as fronteiras em cada extremo de sua dimensão. A perspectiva do segundo Wittgenstein elevou as possibilidades do conhecimento humano ao concebê-lo como resultado de um processo linguístico construído através das ações do homem. Diria mesmo que, em Wittgenstein, todo o pensamento filosófico, todo o trabalho intelectual que o homem produziu no transcorrer de sua existência é, na verdade, uma grande conversação que gira em torno da linguagem.


[1] GLOCK, Hans-Johann, op. cit., p. 21-23.

[2] WITTGENSTEIN, op. cit., p. 16.

[3] Ibid., p. 17.

[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 117.


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Linguagem #9 – Dos fundamentos platônico-aristotélicos para os jogos…

Platão, um dos nomes mais expressivos da tradição, tem o mérito de haver sido o primeiro a tratar da linguagem como objeto de investigação filosófica. A obra Crátilo doou à sua investigação uma pesada carga metafísica. Os conceitos nela contidos baseiam-se na dualidade mundo sensível-mundo inteligível, o que, aliás, é a grande descoberta desse pensador. Ancorou sua investigação na busca pelo significado da palavra, o que equivale à busca pela própria essência das coisas, o qual seria uma causa que subsistisse em relação à própria palavra. Para Platão, as palavras eram criadas por um sábio, o Nomoteta, que, como profundo conhecedor das essências, atribuía com perfeição o significado correspondente à ideia da qual a palavra era meio de expressão.

O que levou Platão a realizar tal empreendimento em busca da desmistificação dos fenômenos linguísticos foi a tomada de posição em relação à retórica do discurso sofista, que considerava carente de legitimação. Para ele, os sofistas acreditavam na instituição da linguagem como fruto de convenção entre os homens, todavia sem haver demonstrado o argumento de forma prática. Platão exerce uma crítica do discurso sofista; não rompe, porém, com a dialética entre eles existente. Essa crítica consistia em uma profunda análise da essência da palavra, na procura pelo elemento imutável a partir do qual seria possível conceber a palavra em um sentido único, isolado das circunstâncias e de qualquer contexto. “Platão acreditava que o único meio era constituir um discurso que contivesse ele próprio seu critério de validade”[1], de modo a enfrentar a manipulação dos conceitos através de seus possíveis significados.

Já Aristóteles não trata da linguagem diretamente; trata da lógica do discurso, da estrutura, da forma que todo enunciado deve ter para expressar e demonstrar algo. Ao procurar uma sistematização do conhecimento, Aristóteles buscou, na verdade, uma maneira através da qual pudesse identificar as estruturas de cada saber específico com uma estrutura maior, ou seja, com uma superestrutura que comportasse todas as outras, porquanto fosse capaz de dar conta da realidade em sua totalidade. A forma encontrada foi, portanto, a instituição de um critério com o qual pudesse validar a identidade entre essas estruturas, isto é, a lógica (então designada, pelo filósofo, de analítica). Aristóteles substituiu a transcendência platônica pelo empirismo e este é uma característica sua. Isso implica um pragmatismo que necessita da observação do real para se concretizar e, com base nessa observação, o filósofo ora enfatizado elaborou uma teoria que pretende promover a compreensão dos enunciados a partir de sua construção gramatical, entendendo esta como condição para uma compreensão da semântica.

Com base nos tópicos acima desenvolvidos, consideramos que três argumentos se mostram relevantes para o desenvolvimento deste capítulo. Primeiro: a essência, que, para Platão, é condição de possibilidade de existência do significado, torna-se, em Aristóteles, substância, que indica a unidade entre o signo e seu significado. Ambas as vertentes são, para o segundo Wittgenstein, fruto do essencialismo do pensamento tradicional que ele próprio se lança ao combate, motivo pelo qual trata de descartá-los. Segundo: do mesmo modo, despreza a dualidade platônica entre o mundo sensível e o mundo inteligível[2], que Aristóteles pretendeu substituir por uma identificação conceitual entre a estrutura do mundo e a do pensamento[3] em razão de que, em sua concepção, não há distinção de mundos como imaginava Platão, e de acreditar, diferentemente de Aristóteles, que a estrutura do mundo nos é dada imediatamente com a da linguagem[4]. Terceiro: tomando a palavra, que, para Platão, é o elemento em função do qual os elementos linguísticos se articulam para construir o significado[5] e a lógica, que, para Aristóteles, é o mecanismo de validação da relação entre palavra e significado[6], Wittgenstein enfatiza a subjetividade humana[7] como mediadora da relação entre palavra e lógica, de modo a poder construir um significado, conceitualmente falando, mais próximo da realidade em sua fluidez.


[1] GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo. Palavra e Verdade na Filosofia Antiga e na Psicanálise. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 61.

[2] REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1994. (Série História da Filosofia). p. 203.

[3] Ibid., p. 468-470.

[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 127-128.

[5] GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo, op. cit., p. 58.

[6] REALE, Giovanni, op. cit., p. 456-458.

[7] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 141.


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Linguagem #8 – Reviravolta metodológico-pragmática e…

Iniciada em 1936, a obra Investigações Filosóficas só veio a ser terminada no ano de 1950. É composta de duas partes distintas, uma das quais foi terminada em 1946 e a outra, bem pouco antes da morte do autor, conforme dito acima. A distinção entre as duas partes se refere à cuidadosa ordenação paragrafal da primeira e à ordem aleatória da segunda. Esta também está dividida em treze partes, ordenadas, como o próprio Wittgenstein disse, “[…] às vezes como longos encadeamentos sobre o mesmo objeto, às vezes saltando em rápida alternância de um domínio para outro […]”[1].

Os escritos nela contidos são considerados uma obra-prima da literatura alemã. É preciso observar que não representa uma doutrina específica, nem tem a pretensão de sê-lo. Investigações Filosóficas traz, conforme a indicação de nossas fontes de pesquisa, a prova de uma radical oposição ao trabalho wittgensteiniano anterior, o Tractatus, e, consequentemente, a toda a tradição filosófica da qual o filósofo foi o último representante. Essa obra tem caráter indireto e assistemático, o que revela o desprezo de Wittgenstein pelas antigas concepções filosóficas. Rejeita as demonstrações pelo cálculo lógico e enfatiza as suposições em que fundamenta suas categorias[2].

Contemporâneo de Russel e de Moore, pode-se dizer que Wittgenstein adota um estilo de escrita um pouco menos peculiar que o tradicional, ou seja, adota um estilo extremamente simples, que pode ser, contudo, considerado eficaz. Nega-se ao cometimento de certos abusos, esboçando um estilo próprio e, ao mesmo tempo, coletivo. Tinha um cuidado extremo com a forma com a qual escrevia e posicionava seus escritos, pois tinha o objetivo de não ser mal-entendido e queria que sua escrita transmitisse exatamente aquilo que pretendia com seu pensamento. Era, por assim dizer, um pragmático que, de certa forma, fora vítima de seu próprio rigor intelectual. Acreditava que por meio da compreensão da fisiologia de nossa linguagem (e de seu uso reto) é que seríamos capazes de atingir um esclarecimento real, baseados no qual poderíamos acabar com o mal-entendido que estava na origem do problema filosófico.[3] Isso se reflete de forma muito clara na escrita wittgensteiniana. Ao editá-la, o filósofo buscava atingir uma organização que pudesse reduzir ao máximo a ocorrência de mal-entendidos, chegando mesmo a uma quase perfeição. Diante dessas considerações, podemos afirmar que o estilo de Wittgenstein não está claramente delimitado dentro disto que chamamos de convencional e que seria melhor definido como algo entre diversos estilos. Wittgenstein admite que:

“Após várias tentativas fracassadas para condensar meus resultados num todo assim concebido, compreendi que nunca conseguiria isso, e que as melhores coisas que poderia escrever permaneciam sempre anotações filosóficas; que meus pensamentos logo se paralisavam, quando tentava, contra sua tendência natural, forçá-los em uma direção.”[4]


[1] Wittgenstein. São Paulo: Nova Cultural, 1989. (Coleção Os Pensadores). p. 7.

[2] GLOCK, Hans-Johann. Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 34.

[3] MACHADO, Alexandre Noronha. As Investigações Filosóficas de Wittgenstein: Estilo e Método. In: Colóquio Prazer do Texto, 2., 2006, Salvador. Anais eletrônicos…Salvador: UFBA, 2006. Disponível em: http://alexandremachado.50webs.com/pesquisa/comunicacoes/investigacoes.pdf>. Acesso em: 21 set. 2008.

[4] Wittgenstein, op. cit., p. 7.


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Linguagem #7 – A REVIRAVOLTA METODOLÓGICO-PRAGMÁTICA

Neste capítulo, trataremos de explicar a obra em estudo através de dados históricos e de categorias fundamentais do pensamento wittgensteiniano. Pô-lo-emos em relação com as perspectivas de Platão e de Aristóteles, por julgar ser esta a forma mais apropriada de confirmar sua nova vertente do ponto de vista segundo o qual seus predecessores abordaram respectivamente a linguagem e a lógica. Esclarecemos que optamos por trabalhar com os autores supramencionados por acreditarmos que atendem melhor as finalidades desta pesquisa, sendo que, neste momento da argumentação, daremos ênfase ao estudo das formas de vida e dos jogos de linguagem, considerando-os como categorias sem as quais seria impossível cumprir mais esta etapa de nosso trabalho. No transcorrer deste estudo, identificaremos elementos comuns tanto à filosofia de Platão como à de Aristóteles, encontrando em neste último maior amparo para o desenvolvimento de todo o conjunto da obra de Wittgenstein. Veremos que, das categorias originalmente ideadas, umas foram imprescindíveis para que Wittgenstein chegasse à sua teoria do Tractatus, outras, para que viesse a superá-la em suas Investigações Filosóficas.


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Linguagem #6 – O segundo Wittgenstein e a linguagem como condição de possibilidade…

Entramos na segunda fase de Wittgenstein. O itinerário por nós percorrido até aqui é de fundamental importância para que possamos compreendê-la, pois é contrapondo-se suas duas fases que se torna possível chegar a um entendimento acerca das suas Investigações. Nesta fase, Wittgenstein assume uma perspectiva de frontal oposição em relação à tradição, que tem sua última expressão justamente com o Tractatus Logico-Philosophicus, sua obra anterior. O cerne de seu pensamento permanece o mesmo; o que muda, entretanto, é a perspectiva.

“[…] Wittgenstein desenvolve seu pensamento na segunda fase como uma crítica radical à tradição filosófica ocidental da linguagem, cuja expressão última havia sido precisamente o Tractatus. Em suma, sua obra da segunda fase encontra-se em fundamental oposição com a da primeira, mesmo que o problema central permaneça o mesmo.”[1]

Wittgenstein passa por mudanças profundas que o levam às Investigações Filosóficas, esta que é sua obra de maturidade. Não acredita mais ser possível a existência de uma linguagem através da qual se pudesse exprimir a realidade de uma forma lógica e absoluta. Descobriu que a linguagem, em sua prática cotidiana, manifesta-se cheia de imprecisões; então, viu-se constrangido a repensar seu próprio pensamento, o que teve como consequência a refutação de si próprio de maneira radical.

Nessa fase, Wittgenstein pretende acabar com a concepção individualista da consciência e, consequentemente, com o dualismo epstemológico-antropológico da tradição ocidental. O homem, pensado como consciência individual, é pelo filósofo em pauta posto num plano secundário, pois este compreende que, no processo linguístico, a intersubjetividade é condição de possibilidade de realização da própria linguagem; a busca por um elemento que forneça significação às palavras encontra repouso no fato de o filósofo haver vislumbrado que é o uso da palavra, no contexto em que é empregada, que determina sua significação. A internalização desse sentido de uso da palavra é, para Wittgenstein, a ponte entre as diversas subjetividades.

‘Ele vai situar o homem e seu conhecimento no processo de interação social, o que vai levar, posteriormente, não só à consideração da relação entre conhecimento e ação, linguagem e praxis humana, como também à consideração explícita do papel da comunidade humana na constituição do conhecimento e da linguagem humana […]”[2]

Wittgenstein critica veementemente o essencialismo da tradição filosófica que ajudou a forjar. Para ele, não é mais admissível que dada forma de linguagem seja absolutizada como paradigma sobre todas as outras. Essa seria a causa de uma ilusão metafísica que induz ao erro de se crer num significado próprio e específico para cada palavra. Como vimos acima, o significado das palavras se dá por seu uso, de modo que pode variar conforme as circunstâncias. “Para o segundo Wittgenstein, tal ideal não passa de um mito filosófico. Um ideal de exatidão completamente desligado das situações concretas do uso da linguagem carece de qualquer sentido.”[3]

O filósofo propõe, assim, uma espécie de abandono de todo o aparato lógico-formal ideado pelo próprio homem, o que equivale a conceber a linguagem humana de forma distinta da até então realizada. A linguagem, enquanto exigência a ser satisfeita para a construção do conhecimento humano, deve ser tratada sob uma perspectiva mais ampla e isso significa considerar sua forma e seus aspectos de um modo geral, não apenas como faziam os gregos com suas inclinações teleológicas, que reduziam a totalidade das coisas àquilo a que elas supostamente tendiam, ou seja, para sua finalidade. Conforme Oliveira: “A teoria objetivista da linguagem tem, pois, caráter reducionista, uma vez que reduz todas as funções da linguagem a uma única.”[4]


[1]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 117.

[2]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 132.

[3] Ibid., p. 131.

[4] Ibid., p. 127.


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Linguagem #5 – O primeiro Wittgenstein e a função designativa da linguagem

Wittgenstein é um dos principais herdeiros do pensamento aristotélico. Tendo, em suas obras, abordado exclusivamente a linguagem, teve a oportunidade de ampliar conceitos fundamentais de Aristóteles que tratam da lógica e que se aplicam à linguagem. Propôs-se, assim, a uma nova sistematização do ato de predicar o real. Admitiu os erros da tradição e partiu em busca de superá-los.

Em sua primeira fase, pensa, a partir da relação entre linguagem e pensamento, uma estrutura para o mundo e, com ela, uma forma de expressá-lo. Idealiza um conceito no qual a significação está condicionada à associação a outros conceitos, ou seja, a significação só existe dentro de um contexto.

“[…] para o Wittgenstein do Tractatus, o sentido de uma frase é o fruto da associação das significações de seus elementos. O que há de novo aqui é que o elemento só tem significação enquanto elemento, isto é, enquanto membro de uma frase e não mais independente dela como era antes.”[1]

Supera, na tradição, a noção de que o mundo seja a totalidade das coisas, instituindo como categoria fundamental de seu pensamento a do fato, o que faz com que, desse modo, o mundo seja a totalidade dos fatos. Esclarece-se que, aqui, fato deve ser entendido como o subsistir de um estado de coisas, sendo este, por sua vez, a forma como se configuram os fatos dentro de um processo. O filósofo diferencia fato e estado de coisas como sendo um referente a algo que ocorre, já o outro, referente a algo que pode ocorrer.

“A categoria fundamental, pois, para a expressão do mundo é a categoria do fato (Tatsache). Ora, Wittgenstein distingue essa categoria da categoria de ‘estados de coisas’ (Sachverhalt). A diferença fundamental entre ambos é, como interpreta muito bem Stenius, que o ‘estado de coisas’ se refere unicamente ao conteúdo descritivo das frases, enquanto fato se refere a sua realidade; usando as expressões de Stegmuller, o fato diz respeito a algo que realmente ocorre, enquanto o estado de coisas representa, apenas algo que possivelmente pode ocorrer.”[2]

Wittgenstein fala de um isolamento ontológico dos elementos fundamentais que trata das distinções entre estados de coisas atômicos e estados de coisas complexos, sendo estes também chamados de situações. Isso dentro da noção de que as informações chegam a nós por meio dos estados de coisas e a estrutura das situações é de natureza lógica. Idealiza um conceito chamado espaço lógico, para abordar da estrutura da totalidade dos estados de coisas; esse recurso serve para elucidar a diferença entre o mundo real e o mundo possível. O autor diz que fazemos figurações do mundo e isso é fundamental para nosso estudo, pois daí decorrem dois fatos: primeiro, a transformação do mundo em pensamento e, segundo, a expressão linguística do mundo, ou seja, a conversão deste em frases. Sobre isso, diz Oliveira:

“As informações do mundo nos vêm sempre por meio dos estados de coisas, e a estrutura das situações é de natureza lógica. Com a ajuda do espaço lógico, Wittgenstein fala da estrutura da totalidade dos estados de coisas embora os estados de coisas, quanto ao conteúdo sejam sempre isolados. E é por isso que esse conceito, como diz Stegmuller, serve para elucidar a diferença entre o mundo real e o mundo possível.”[3]

“[…] Nosso mundo real é apenas um ponto no espaço lógico onde são pensáveis outros pontos ou outros mundos possíveis. Neste espaço estão os fatos que constituem o mundo real, mas poderiam estar outros, pois é possível pensar outras configurações de objetos.”[4]

Nesse raciocínio, Wittgenstein propõe o isomorfismo para demonstrar, a partir das correspondências, o fato de que, quando alguém vê algo ocorrer e, ao vê-lo, tenta comunicá-lo a outrem, procura fazê-lo de uma maneira que represente o ocorrido como tal. Assim, declara a existência de dois mundos: o dos fatos e o dos pensamentos. Afirma que deve haver identidade entre o primeiro (o que ocorreu) e o segundo (a figuração do ocorrido). A teoria do isomorfismo põe em primeiro plano a questão da verdade, que Wittgenstein pretende resolver com o conceito de forma lógica, que, num discurso, nada mais é do que a coerência entre o fato e o que ele figura. A forma lógica é, portanto, o elemento regulador de relações entre o mundo dos fatos e o dos pensamentos. Desse modo, a verdade seria, então, o produto dessa relação (desde que esta se realize dentro dos critérios acima mencionados). A figuração de que fala Wittgenstein

“Trata de explicar a correspondência entre mundo e pensamento (linguagem). Ora, para Wittgenstein tal correspondência só é possível quando ambos os pólos têm algo em comum, ou seja, a forma de afiguração. Essa identidade, que permite a correspondência, é a ‘forma lógica’, que Wittgenstein determina como a forma da realidade.”[5]

O critério que Wittgenstein utiliza para fundamentar a teoria da figuração é a estrutura do mundo, que põe em relação com a forma da figuração. A figuração pode assumir qualquer forma de realidade, desde que haja correspondência entre elas. Essa correspondência implica uma identidade lógica entre o fato e o que ele afigura. Sendo o pensamento o meio lógico para a realização dessa transição, pode-se dizer que ele é a proposição significativa dos fatos, enquanto a linguagem é o meio pelo qual predicamos algo a respeito do mundo. De fato, “‘o pensamento é a proposição significativa’ e a linguagem se refere diretamente ao mundo objetivo. Trata-se, portanto, de dois fatos fundamentais: o mundo como fato e a frase como fato, o qual expressa o pensamento do mundo”[6].

O sistema do primeiro Wittgenstein está dividido em três conjuntos, os quais contêm a forma da linguagem. O conjunto das frases elementares é o dos signos proposicionais, no qual está contida a expressão do pensamento. A frase elementar é a unidade de significação em que está a representação do fato, sendo considerada, ela própria, também um fato. O conjunto das frases complexas é aquele no qual está incluída a estrutura lógica da linguagem, em que, precisamente, processa-se o fenômeno da figuração. A forma lógica, que é o elo entre a figuração e o figurado, tem a propriedade de figurar a realidade, entretanto não pode afigurar aquilo que há de estruturante entre ela e o fato, isto é, a realidade. O conjunto das frases decisivas é o que abrange a unidade de sentido do sistema linguístico de Wittgenstein. Esse conjunto se refere aos anteriores na medida em que verifica o sentido das frases neles produzidas.

“Ter sentido para uma sentença significa para Wittgenstein ser verdadeira ou falsa. Toda sentença possui dois pólos que constituem seu sentido, isto é, o pólo da verdade e o pólo da falsidade. O valor de verdade não é atribuído, posteriormente, ao sentido, mas o sentido mostra-se precisamente no poder ser verdadeiro ou falso.”[7]


[1] Ibid., p. 97.

[2] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 98.

[3] Ibid., p. 99-100.

[4] Ibid., p. 101.

[5]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 102.

[6] Ibid., p. 107.

[7]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 111.


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