Linguagem #16 – Referências Bibliográficas

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PLATÃO. Crátilo. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.

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WITTGENSTEIN. São Paulo: Nova Cultural, 1989. (Coleção Os Pensadores)


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Linguagem #15 – CONCLUSÃO

Quando iniciamos este trabalho, delimitamos nosso percurso intelectual no projeto de monografia, sob a forma de sumário. Agora que chegamos ao momento final da pesquisa, é hora de avaliar se nossos objetivos foram atingidos e de que forma o foram. No primeiro capítulo, buscamos realizar uma contextualização da vida e da obra de Wittgenstein, de modo que pudéssemos adentrar seu pensamento por meio das circunstancialidades nas quais a obra estudada está envolta. Na primeira parte desse capítulo, enfatizamos a trajetória intelectual do autor e as relações que se deram em torno da perspectiva teórica, de maneira a poder perceber como os acontecimentos influenciaram a conhecida reviravolta pragmática. Na segunda parte, relatamos um ponto fundamental de sua teoria, que culmina com a relativização do paradigma da função designativa da linguagem como concepção de uma linguagem ideal. Já na terceira e última parte desse capítulo, destacamos a transformação através da qual Wittgenstein chega à descoberta da função designativa da linguagem como apenas uma entre tantas outras possíveis, e esta viria a ser mesmo não um instrumento de comunicação de um conhecimento já realizado, mas condição de possibilidade para a realização do conhecimento humano enquanto tal. Diante de tais elucidações, acreditamos ter cumprido os objetivos propostos para esse capítulo.

Na primeira parte do segundo capítulo, analisamos a metodologia de Wittgenstein em suas principais obras, ocasião na qual enfatizamos, de forma mais apropriada, a reviravolta metodológica já diversas vezes mencionada neste estudo. Percebemos que nosso filósofo aplicou a si próprio o mesmo pragmatismo que impunha aos escritos de terceiros. Entre pesquisas e analogias, optamos por denominar seu método, na obra estudada, de descritivo-crítico pelos motivos anteriormente mencionados. Na segunda parte, relacionamos as categorias centrais das Investigações Filosóficas com os fundamentos platônico-aristotélicos, visto serem imprescindíveis para que Wittgenstein atingisse seus próprios fundamentos. Platão, por tratar-se do precursor no estudo da linguagem; Aristóteles, por estabelecer as bases sobre as quais a linguagem seria realizada, sendo esta uma estrutura lógica em que o pensamento seria a relação lógica entre o mundo (a realidade) e a linguagem. Na terceira parte, salientamos o rompimento entre a filosofia tradicional e a contemporânea, e encontramos, justamente em Wittgenstein, o elo entre essas duas grandes épocas. Esse filósofo foi o último representante do pensamento filosófico tradicional e o primeiro do contemporâneo e, como tal, responsabilizou-se pela quebra dos paradigmas que os separam fundamentalmente. Se Wittgenstein não respondeu a todas as questões decorrentes desse rompimento, tem, pelo menos, o mérito de havê-lo rompido, o que, por si só, é algo louvável. Assim, damos conta de mais um capítulo cujo desfecho converge rumo ao proposto para tal.

No terceiro capítulo, na primeira parte, tratamos dos fenômenos que se configuram como plano de fundo de toda a argumentação em torno da obra wittgensteiniana: a realidade física, que Wittgenstein chama de totalidade dos fatos e cuja linguagem tenta abarcar; a consciência, que supõe todo e qualquer agir humano em torno da realidade; e a subjetividade, que, para o filósofo em evidência, é a forma pela qual a linguagem se manifesta indeterminada. Na segunda parte, concebemos uma estética da linguagem a partir das noções colhidas nas duas principais categorias tratadas nas Investigações Filosóficas: as formas de vida e os jogos de linguagem. Wittgenstein define a forma de vida como sendo o contexto de ação no qual a linguagem se desenvolve (esta é sua imagem), e o jogo de linguagem como sendo a relação entre cultura e linguagem (esta é sua fisiologia). Por fim, na terceira parte desse último capítulo, buscamos criar condições para responder à pergunta em função da qual toda a argumentação foi estruturada. Questão esta recolhida das Investigações Filosóficas e respondida de modo a encontrar o assentimento de seu próprio autor. A significação de uma palavra é seu uso na linguagem – esta é a resposta para a questão central de nosso estudo. Agora, podemos dar por encerrada nossa argumentação.

Antes das considerações finais, julgamos necessário esclarecer que o pretendido com esta exposição não foi, de modo algum, demonstrar, ou provar nossos pontos de vista em relação à argumentação de Wittgenstein. Nosso objetivo primordial foi, concordando com o autor, procurar, na medida do possível, apresentar os fatos sem querer dar a eles uma segunda versão, pois concluímos que, para o trabalho filosófico, é mais importante a exposição, a explanação dos fatos em busca de uma proximidade maior com isto que se convencionou chamar de verdade, embora devamos concordar que alcançar uma verdade absoluta seja, de fato, impossível.

Finalmente, podemos dizer que a impressionante transformação espiritual pela qual Wittgenstein passou foi, certamente, determinante para a reviravolta linguístico-pragmática operada em sua vida. Tal acontecimento trouxe consequências radicais para todas as áreas do conhecimento na contemporaneidade. A linguagem, tradicionalmente concebida como uma imagem do mundo cuja principal função seria descrevê-lo, foi elevada ao status de condição de possibilidade de realização desse conhecimento, isto é, passou a ser o centro doador de significação dos fatos da realidade, visto que, com ela, conhecem-se e aprendem-se os fatos da realidade.

Nestes momentos finais, resta-nos ainda considerar o fato de que a concepção do fenômeno linguístico foi radicalmente modificada com Wittgenstein e a partir dele. Se, de forma geral, o senso comum porventura continua a ancorar suas experiências linguísticas em concepções tradicionais, podemos concordar que, cientificamente, essa concepção é, hoje, algo completamente defasado, o que nos leva a perceber a importância do pensamento filosófico de Wittgenstein para a contemporaneidade. Após a leitura dos escritos desse filósofo, é possível perceber que especialistas em linguagem, das diversas áreas do conhecimento, apropriam-se dessas descobertas no âmbito de suas respectivas profissões. Estudiosos das áreas da Semiótica, do Marketing, das Letras e da Linguística, em geral, têm se utilizado, cada vez mais, do legado wittgensteiniano, de modo a contribuir para o aperfeiçoamento de suas ideias.

A herança wittgensteiniana tem sido tratada, ao longo do tempo, sob as formas e os aspectos mais diversos, cada um contribuindo, com sua interpretação, para a expansão do conjunto da obra de Wittgenstein. Uns acusam outros de incorrer nos mais variados erros interpretativos, de considerar, ou de desconsiderar certos aspectos, contextos e relações nos quais o autor teria se baseado para chegar a suas descobertas. Independentemente do fato de haver interpretações certas ou erradas, o que fica é a relevância de todo o conjunto de argumentações desses estudiosos para o enriquecimento do conhecimento do fenômeno linguístico e desse fenômeno como condição para a evolução do conhecimento humano de modo geral.


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Linguagem #14 – A palavra enquanto unidade central de significação

A obra aqui explorada tem como cerne o estudo da palavra e seu uso no processo de interação social dos homens. Procura considerá-la em todas as formas e sob todos os aspectos, inclusive, a partir das classes gramaticais e das convenções que se dão em torno do processo linguístico. A palavra é o meio pelo qual o homem pode expressar todo o conjunto de signos linguísticos a que tem acesso. Sendo a palavra a unidade central de significação de nossa linguagem, é através dela que podemos acessar os infinitos significados da realidade, instrumentalizando-nos para interpretá-la. A palavra tem a propriedade da flexibilidade, isto é, guarda em si todos os componentes da significação. Mais que isso: quando associada a outras palavras, essa capacidade de significar sofre, por assim dizer, uma espécie de dilatação, permitindo que possamos, através do significado, expressar coisas, atos, processos e fenômenos. Se considerarmos, ainda, as circunstâncias nas quais as palavras são postas, elas vão além daquilo que, comumente, percebemos. Elas assumem formas, aspectos, modos e tempos que variam de acordo com os contextos em que se situam.

No primeiro capítulo deste trabalho, dissemos, conforme a obra estudada, que Wittgenstein vê, na palavra, a unidade central de significação de nosso sistema linguístico, de modo que ela é que torna possível a articulação do pensamento em frases, porquanto é fundamental para a forma humana de se expressar. Vejamos, nas palavras do autor, um exemplo do que acima é dito, ao se referir a certo escrito de Santo Agostinho na obra Confissões.

“[…] Nessas palavras temos, assim me parece, uma determinada imagem da essência da linguagem humana. A saber, esta: as palavras da linguagem denominam objetos – frases são ligações de tais denominações. – Nesta imagem da linguagem encontramos as raízes da idéia: cada palavra tem uma significação. Esta significação é agregada à palavra. É o objeto que a palavra substitui.”[1]

Temos, então, já no parágrafo primeiro das Investigações Filosóficas, o exemplo de um diálogo em que Wittgenstein enfatiza, de forma simples, a função designativa da linguagem. Isso, contudo, se a compreendermos de acordo com os parâmetros tradicionais.

Prosseguindo, porém, a leitura do mesmo parágrafo e fazendo-a com atenção, vemos, um pouco mais adiante, que o que nosso filósofo pretende mostrar é bem diferente do que nossa observação nos induz a fazer de modo imediato. Analisemos a conclusão do parágrafo:

[…] “mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‘vermelho’, e o que vai fazer com a palavra ‘cinco’?’ – Ora, suponho que ele aja como eu descrevi. As explicações têm em algum lugar um fim. – Mas qual é a significação da palavra ‘cinco’? – De tal significação nada foi falado aqui; apenas, de como a palavra ‘cinco’ é usada.”[2]

Esse fragmento ressalta o modo como a palavra está sendo empregada dentro da forma de vida que a precede. Notemos que, pela maneira tradicional de pensar, somos induzidos a procurar pelo significado da palavra em detrimento de sua situação contextual, o que, de certa forma, invalida a análise que se faz nessas condições, visto que, assim, o diálogo ficaria desprovido de sentido. Essa é, segundo Wittgenstein, uma ilusão causada pela gramática da língua, que privilegia o significando do conceito e deixa de considerar o modo como as palavras são empregadas dentro de um processo. Ao que parece, encontramos, assim, a chave do pensamento do segundo Wittgenstein.

Não é que a palavra substitua o objeto ao designá-lo; o que ela faz é afirmar a existência desse objeto em função de determinados referenciais. Estes, por sua vez, são colocados em segundo plano por nós quando aprendemos o uso da linguagem por meio das normas gramaticais. Isso ocorre em virtude de serem as normas idealizadas sem a consideração das infinitas formas de vidas em que um processo pode acontecer. Dessa maneira, nossa compreensão do signo se torna errada pelo fato de desconhecermos, ou de mal identificarmos o núcleo segundo o qual o significado se processa. Explicando melhor: se procuramos pelo significado de uma palavra considerando a palavra em si mesma, podemos acreditar num significado fixo e imutável – o conceito. No entanto, se procurarmos pelo significado de uma palavra considerando a forma de vida na qual ela está inserida e a maneira como ela é empregada, teremos um significado variável de acordo com as circunstâncias. E, como, na práxis linguística cotidiana, isso é o que, de fato, acontece, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a palavra, enquanto unidade de significação, não guarda ela própria seu significado, mas que este se processa conforme o uso que dela é feito.

Diante do acima exposto, remetendo à introdução do nosso trabalho, estando amplamente familiarizado com as categorias fundamentais do pensamento wittgensteiniano, e acreditando haver criado as condições necessárias para realização de nosso intento, podemos, então, responder, de forma apropriada, por que Wittgenstein diz, em sua obra Investigações Filosóficas, que a significação de uma palavra é seu uso na linguagem.

Durante todo o percurso que, agora, será concluído, procuramos enfatizar, de acordo com as obras estudadas, a questão dos contextos enquanto instância central de significação das expressões linguísticas. Os contextos, os quais Wittgenstein também chama de formas de vida, retratam o fenômeno que se manifesta através da interação social dos homens. É esse fenômeno, precisamente, a origem de todo o conjunto de significações presentes numa forma de vida: o jogo de linguagem. Esse jogo é o movimento que dá forma a uma forma de vida. É ele que determina o que se pode predicar de uma forma de vida e aquilo que nela é predicável. É, pois, resultado do processo de interação dos homens. Nessa perspectiva, Wittgenstein ressalta a maneira como são usadas as palavras dentro de um jogo, salientando a força das circunstâncias sobre o sentido das palavras e considerando os arredores do processo como imprescindíveis à materialização dos fenômenos linguísticos. Nesse sentido, conforme Oliveira (Oliveira, 2004), em sua Reviravolta Linguístico-pragmática, “a significação das palavras só pode ser esclarecida por meio do exame das formas de vida, dos contextos em que essas palavras ocorrem, pois é o uso que decide sobre a significação das expressões lingüísticas”[3].

Ao que constatamos no § 43 das Investigações Filosóficas, “pode-se, para uma grande classe de casos de utilização da palavra ‘significação’ – senão para todos os casos de sua utilização -, explicá-la assim: a significação de uma palavra é seu uso na linguagem”[4]. E ainda: “Todo signo sozinho parece morto. O que lhe dá vida? – No uso, ele vive. Tem então a viva respiração em si? – Ou o uso é sua respiração?”[5].

Desse modo, como tivemos oportunidade de constatar, em quase todos os momentos do estudo dessa obra, fica nossa questão fundamental respondida assim: o significado das palavras se dá por seu uso, ou seja, pela forma como a utilizamos quando interagimos com os demais. Não há significado fixo, imutável. Se assim fosse, nossa comunicação seria mecânica e desprovida de sentido na maioria das vezes. Para compreendermos o significado de uma palavra, temos que levar em conta os arredores do processo: as circunstâncias, os elementos extralinguísticos – o contexto de maneira geral.

Finalmente, após tantos parênteses e pontos finais, cremos ter cumprido a última etapa de nosso trabalho. Considerando a finalidade com a qual esta pesquisa foi realizada, isto é, a de tratar dos fundamentos da linguagem levando em conta as perspectivas que se abrem para uma nova forma de pensá-la no estágio atual de conhecimento da humanidade, esmiuçamos a obra de Wittgenstein, pondo-a em relação com antigas e novas categorias de pensamento, inclusive, trazendo, para o corpo deste trabalho, outras já bem esgotadas nos dias de hoje – como é possível notar. Salientamos que, para esta composição, privilegiamos o uso de uma linguagem simples, que pudesse, de forma clara, expressar nosso posicionamento em relação às orientações encontradas nas diversas fontes de pesquisa e, sobretudo, na obra que nos inspirou a realizar esse constructo. Esperamos, com isso, contribuir para o crescimento das pesquisas em torno desse tema, que, por si mesmo, já é bastante instigante, de modo que, agora, podemos, sem mais pormenores, colocar o último e definitivo ponto final.


[1] WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 1. p. 9.

[2] Ibid., § 1, p. 10.

[3] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 132.

[4] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 43, p. 28.

[5] Ibid., § 432, p. 131.


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